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Em áudio, candidata diz que pagou por fraude em concurso de delegado

30 de novembro de -0001
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A bacharel de direito Suzane Fonseca dos Santos, de 28 anos, que está entre cinco detidos suspeitos de envolvimento em fraude de concurso para delegado, em Goiânia, confessou à Polícia Civil que pagou cerca de R$ 5 mil aos aliciadores do esquema. Em um áudio, ela explica que ainda não tinha arcado com todo o valor acertado e que, por isso, exigiram até que ela vendesse a casa da mãe (confira no vídeo acima).  O concurso foi suspenso.

“Eu vendi o meu carro, tudo o que eu tinha de economia, perdi tudo, está com eles. Paguei tudo em espécie, tudo em dinheiro. Aí eu transferi e guardei alguns comprovantes. Mas eles queriam a casa da minha mãe, mas eu fiquei enrolando, porque não queria. Aí eu fiz um empréstimo penhorando a casa para ela não ficar sem casa”, contou.

Ainda no áudio, Suzane falou sobre a quantia que deveria pagar aos aliciadores do esquema. “Eles cobraram R$ 20 mil de entrada, mais o valor de dez salários [mínimos] na primeira fase e mais dez salários na segunda. Só que eu não paguei tudo ainda, acho que uns R$ 5 mil e poucos”, afirmou.

Em seguida, um policial perguntou à candidata se, na primeira fase da prova, a orientação era que ela deixasse tudo em branco na prova. “Não, pediram para marcar algumas [respostas]. Já na segunda fase, que eu não sabia nada, era para responder o que conseguisse de deixava o resto em branco”, relatou a jovem, que informou que foi abordada pelos aliciadores na cidade de Taguatinha, no Distrito Federal.

Após a divulgação do áudio, Suzane disse à TV Anhanguera que as declarações feitas à polícia não são válidas e não podem ser levadas em conta, pois ela não estava na presença de um advogado. Ela ressaltou, ainda, que não foi pega com ponto eletrônico ou outro equipamento que pudesse confirmar a participação dela na suposta fraude.

Suspeitos
Além de Suzane, também foram detidos suspeitos por envolvimento no esquema o médico Antônio Carlos da Silva Francisco, apontado como aliciador, o bacharel em direito Armando Colodeto Júnior, o contador Fábio Alves de Oliveira e o ex-vereador de Palmeiras de Goiás, Magno Marra Mendes.

Os cinco investigados pelo crime foram presos em flagrante no domingo (12), após aplicação da segunda fase do concurso, mas foram liberados após audiência de custódia na terça-feira (14). A decisão foi do juiz Oscar de Oliveira Sá Neto, que afirmou que não ficou comprovado que os suspeitos participavam de uma organização criminosa especializada em fraudes em concursos públicos.
A Polícia Civil havia afirmado que três deles tinham confessado o crime. No entanto, na audiência, nenhum deles confirmou relação com a fraude. O primeiro a ser inquirido foi Magno. Ele afirmou que foi abordado antes de depois da prova. Após passar por uma revista minuciosa, teve o celular analisado pelos policiais. Novamente, assim como já havia dito, alegou que é inocente.
Em seguida, Armando passou a dar declarações ao juiz. Ele afirmou que foi levado à delegacia e colocado para assinar alguns documentos. Questionado se ele confirmava às declarações que fez à polícia, cujo termo tinha sua assinatura, ele respondeu: “Não confirmo esse conteúdo”.
Já Antônio Carlos confirmou que esteve com Magno antes do concurso e reclamou das condições em que foi preso. “Eu não tive condições de defesa, fiquei a noite inteira com eles. Queriam uma história que não existia. Eu tinha que fazer qualquer coisa para sair de lá [delegacia]”, afirma.

Suzane informou que “foi coagida” pela polícia. Ela também fez queixas sobre a forma como foi tratada após a prisão. No entanto, deixou escapar que está arrependida pelo que fez, mesmo sem confessar o crime. “O tempo todo fiquei em uma sala escura, sem tomar banho nem nada. Caí em um momento de besteira, mas estou arrependida”.
O último a ser ouvido foi Fábio. Ele afirmou que fez o concurso por curiosidade. O contador destacou que conheceu Antônio por meio de um advogado e negou ter participado do crime. “Assinei tudo que pediram. O que tenho para dizer é que sofremos coação deles [polícia]”, diz.
Ele negou também o relato da polícia de que teria negociado a aquisição do diploma de direito – requisito necessário para tomar posse no concurso – e que ele não possuía. “Não confirmo”.
O delegado Rômulo Figueiredo Matos, responsável pelas investigações na Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Dercarp), negou que qualquer um deles tenha sido coagido.
“De forma alguma, não houve qualquer tipo de coação. Todos tiverem oportunidade de ligar para advogados ou parentes, alguns quiseram e outros não quiseram, realizaram diversos telefonemas. Tudo foi totalmente respeitoso aos direitos humanos com livre exercício da ampla defesa. Quem falou, falou porque quis, dentro da perfeita legalidade”, afirmou ao G1.

Buscas
Na quarta-feira, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão na residência e no consultório do médico Antônio Carlos. Nos dois endereços, foram apreendidos documentos que devem ser analisados. Entre as apreensões feitas durante a busca estão anotações de valores e nomes, que devem ser investigados.
A defesa do médico informou ao G1 que não vai se posicionar a respeito das buscas.

Segundo o delegado Rômulo, Antônio Carlos é apontado como aliciador, pois conseguia atrair pessoas de seu convívio pessoal e profissional oferecendo cargos públicos mesmo que estes não apresentassem todos os requisitos necessários.

“O contador envolvido, por exemplo, pagou, antes do concurso, R$ 100 mil em duas parcelas e havia prometido repassar mais R$ 150 mil após assumir o cargo e fazer um empréstimo consignado. Ocorre que ele sequer possuía um diploma de direito, requisito básico para tomar posse e ficou entre os dez primeiros colocados. Para resolver o problema, o médico já estava com diploma falso confeccionado”, destaca.

Em nota, o Conselho Regional de Medicina (Cremego) informou que Antônio Carlos teve seu registro cassado em 2006 pelo órgão, decisão referendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) no ano seguinte. No entanto, ele recorreu à Justiça e conseguiu, em 2010, a anulação da decisão. O Cremego recorreu, mas como o recurso não foi julgado, ele tem situação regular e pode exercer regularmente a profissão.
O médico foi condenado pela Justiça pelo crime de aborto, cometido em 1985, em uma adolescente de 14 anos. A decisão foi do 1º Tribunal do Júri de Goiâniax, em sessão presidida pelo juiz Jesseir Coelho de Alcântara. No entanto, como a decisão ocorreu somente em 2004, o magistrado decretou a extinção da pena por prescrição.
A ação do Ministério Público relatou que a gestante foi ao hospital, do qual o médico era proprietário, para uma consulta. Porém, foi dominada por uma enfermeira e operada à força.

Suspensão do concurso
O delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, Álvaro Cássio dos Santos, confirmou que foi constatada fraude no concurso para delegado substituto no estado. Em entrevista coletiva na segunda-feira (13), ele declarou ainda que o processo seletivo está suspenso.
“Destacamos a Dercarp para fazer a investigação. Eles trabalharam essa semana diuturnamente no sentido de comprovar ou não essa fraude. E a fraude, infelizmente, foi comprovada. As demais fases do concurso estão suspensas até deliberação da Segplan [Secretaria de Gestão e Planejamento de Goiás]”, afirmou Santos.
A assessoria de imprensa da Segplan informou ao G1, por meio de nota, que “decidiu suspender o concurso público para Delegado de Polícia Civil, edital n° 007/2016”.
Já o Cebraspe, responsável por organizar e aplicar as provas, destacou, em nota enviada ao G1, “que, no que tange aos acontecimentos relacionados ao concurso para Delegado de Polícia Substituto da Polícia Civil do Estado de Goiás (PCGO), tem colaborado continuamente com a PC-GO e com o Ministério Público do Estado de maneira a garantir a lisura e a isonomia do concurso”.

O órgão ressaltou, ainda, que “medidas de segurança adotadas no certame demonstram o compromisso das instituições responsáveis pela seleção com esses princípios. O Cebraspe reforça que, a qualquer tempo, poderá ser aplicada penalidade cabível, conforme regras que constam nos editais que regem o evento, em situações de irregularidade que forem identificadas”.Certame
A Segplan divulgou o edital do concurso em novembro de 2016. O processo conta com 36 vagas com salário de R$ 15.250,02.
O processo seletivo é composto por oito etapas: provas objetivas, provas discursivas, avaliação médica, avaliação de aptidão física, exame psicotécnico, avaliação de vida pregressa e investigação social, curso de formação profissional e avaliação de títulos.
Os concorrentes precisam ter diploma de curso superior de bacharel em direito. A jornada é de 40 horas semanais e exige disponibilidade para viagens.
O prazo de validade do concurso é de seis meses a partir da data de publicação da homologação do resultado final, podendo ser prorrogado por igual período.

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