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No Rio, 381 escolas fecharam um ou mais dias este ano por causa de tiroteios

30 de novembro de -0001
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Entre julho de 2016 e julho de 2017, a cidade do Rio de Janeiro registrou 3.829 tiroteios, uma média de mais de 10 por dia, o que vem afetando o funcionamento de boa parte das 1.809 instituições de ensino fundamental e médio e as 461 creches e serviços de educação infantil.

Das 1.537 escolas e creches municipais no Rio, 381 escolas ficaram fechadas um ou mais dias durante o primeiro semestre de 2017 por causa de tiroteios ou relacionados a esses eventos. Nas escolas municipais, 129.165 alunos ficaram sem aulas por períodos que variaram entre um e 15 dias, o equivalente a 20,12% do total da rede municipal (641.655 alunos). No primeiro semestre deste ano, em 99 dias dos 107 dias do ano letivo, as escolas e creches tiveram de fechar as portas. Das 388 escolas e creches municipais que tiveram as aulas paralisadas por causa de tiroteios, 36 escolas e creches não funcionaram nove dias ou mais.

Os dados constam do estudo – divulgado hoje (24) – Educação em Alvo: Os Efeitos da Violência Armada nas Salas de Aula. Ele foi elaborado a partir de uma parceria entre a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP) e o aplicativo Fogo Cruzado. O levantamento é subsidiado por mapas e estatísticas sobre o impacto da violência armada na população em idade escolar no Rio de Janeiro e visa à elaboração de políticas públicas que atendam às diferentes necessidades de crianças e adolescentes em idade escolar, que vivem em áreas vulneráveis com altos índices de violência. A pesquisa procurou confrontar dados referentes às instituições públicas de ensino do Rio (escolas estaduais, municipais, federais e creches) com registros de tiroteios/disparos de arma de fogo no município.

Em 2016, dos 200 dias do ano letivo, em 157 dias, as escolas e creches tiveram de ser fechadas. 

Áreas mais afetadas

Grande parte das ocorrências de tiroteios/disparos de arma de fogo concentradas na zona norte atinge principalmente as regiões do Complexo do Alemão (218 registros) e da Maré (119). Uma outra área que chama atenção fica nas imediações da Avenida Brasil, na altura do bairro da Penha (128 registros).

São os bairros de Costa Barros e Acari os que concentram o maior número de escolas municipais, estaduais e creches no Rio expostas à violência armada. Apenas em Acari, foram 72 registros de tiroteio/disparos de arma de fogo, seguido por Costa Barros, com 54 ocorrências.

Uma outra área que chama atenção no documento divulgado é o entorno da Avenida Brasil, na altura do bairro da Penha. Ali, foram contabilizados 128 registros e 71 mortes violentas. Os bairros da Mangueira e do Lins também anotaram números elevados de tiroteios/disparos de arma de fogo: 104 e 101, respectivamente.

Além disso, na Mangueira foram contabilizadas 34 mortes violentas e no Lins, 18. Uma outra região do Rio que se destaca é a Zona Oeste. Apenas no bairro da Cidade de Deus foram apontados 159 tiroteios/disparos de arma de fogo. No bairro de Bangu, há relatos de 63 ocorrências próximas de escolas. Quanto às mortes violentas, na Cidade de Deus foram anotados 81 óbitos e em Bangu, 133.

Conclusões

Com a constatação de que “a exposição à violência gera efeitos duradouros e afeta diretamente as possibilidades de vida dos cidadãos”, a FGV/DAPP, em parceria com o Fogo Cruzado, apontou áreas consideradas prioritárias na adoção de medidas de urgência para direcionar a atuação do Poder Público para reduzir os danos causados pela violência.

Tanto as informações do Fogo Cruzado quanto as do governo estadual mostram que há significativa concentração da violência na zona norte e em áreas da zona oeste.

O relatório reconhece, ainda, os impactos diretos da violência na capacidade de aprendizado e de desenvolvimento de novas habilidades, o que compromete as possibilidades de vida de crianças e jovens. O documento admite que os problemas da segurança pública são de difícil solução e de longo prazo e defende a necessidade de priorizar ações.

Entre elas, a garantia da segurança das áreas de exposição à violência, priorizando o horário de funcionamento das escolas e creches; a realização de capacitações para os professores, de forma que eles possam atender às necessidades especiais de seus alunos decorrentes da exposição à violência; e o oferecimento de condições especiais de contratação para os profissionais que atuam nessas áreas visando garantir estabilidade nas relações escolares para diminuir a alta rotatividade de professores.

Estas condições especiais devem envolver desde adicionais salariais pelas condições de insegurança até o acompanhamento psicológico continuado para os próprios professores, passando por cursos de capacitação mais frequentes e pela proibição de a polícia de usar creches e escolas como bases operativas.

Para a pesquisadora da FGV/DAPP, Barbara Barbosa, há também que se “garantir a presença de profissionais de saúde mental especializados em atender crianças e adolescentes com comportamentos similares ao transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), capazes de lidar com os traumas advindos da exposição rotineira à violência”.

Na avaliação da pesquisadora, “essas políticas devem ser continuamente aplicadas em toda a cidade”. Ela entende ainda que, numa perspectiva de justiça social, o estudo, ao trabalhar sobre dados georreferenciados de violência armada, indica as áreas de urgência de atendimento.

Unicef

Esses efeitos da violência armada nas salas de aulas preocupam autoridades e instituições não governamentais ligadas ao problema. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), por exemplo, divulgou um comunicado na semana passada em que demonstra preocupação com o impacto da violência no desenvolvimento das crianças no Rio de Janeiro.

Dados da Secretaria Municipal de Educação, divulgados pelo Unicef, indicam que, somente neste ano, uma em cada quatro escolas teve que fechar durante determinados períodos ou foi forçada a interromper as aulas por causa dos tiroteios ou outros tipos de confrontos.

Dos 105 dias de aula no período letivo, apenas oito transcorreram normalmente em todas as escolas da cidade, sem interrupção causada pela violência. As 1.537 escolas da rede atendem mais de 650 mil alunos.

As informações indicam, também, que, em abril, a secretaria informou que cerca de 70 mil alunos haviam ficado sem aula pelo menos um dia desde o início do ano letivo de 2017, em 2 de fevereiro.

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